Ciclo

Amanhecer enevoado arrefece o corpo semi-acordado. A paisagem é uma tela inacabada, tinta fresca de horizontes por pintar. A alma pede conforto, o nevoeiro traz solidão. Eu quero a solidão! Alhear-me da realidade, fugir ao rebanho deambulante.

Condição humana de escravidão, o Homem segue um caminho linear, subjugação! Riem-se os demais animais com a sua liberdade aparente. Riem jocosamente, e no  meio de tanta gargalhada, rompe o trovão. O tiro balístico que fura sem contemplação a carne animal. Tapete de Carcaças, a gloriosa passagem do ser racional.

Edifica, destrói, ferramenta de apodrecimento terrestre.  O peão sacrificado de sonho iludido depara-se com a morte no fim do seu caminho. No último sopro pede a ascensão, responde-lhe o vazio, o silêncio desmedido.

Viagem

Sinto a presença que rodeia o meu corpo caminhante de movimento maquinal. Exposto e fragilizado, o pescoço afigura-se o destino perfeito para a lâmina afiada, que, já no encalce à macia carne, reflete a luz glamourizada de uma cidade nefasta, de contornos decadentes.

O toque do metal precipita o sangue, estado líquido de existência a despedir-se do seu habitat. Despojos de uma vida, o odor oxidado faz salivar o abutre contemplativo. O passar do tempo é bem-vindo e a espera pela carcaça a única razão da sua presença. Transita de poiso e liberta a minha alma, pura. O perverso virou dejeto.

Início

Os fins que justificam os meios são pedras lançadas sobre o Homem.
Arremesso desprovido de emoção, a cabeça esfacelada que sangra o rosto inerte. Último suspiro para o derradeiro final. A queda eminente.

O formar da lembrança, início ficcionado de relâmpago, desce a montanha num frenesim cáustico. O rio egoísta que envelhece o mundo, arrasta o seu ímpeto em direção ao mar. O mar não é mais que o seu desejo de Imortalidade.